Ela entrou na loja de brinquedos, os sapatinhos de madeira fazendo “toc toc”no chão. Era mulher de estatura mediana, magrela, o andar tímido, mas não tão tímido quanto o olhar. Olhava como quem pede desculpas. Desculpas por existir, por ter aberto os olhos num dia quente e se achado no mundo. “Desculpe-me pelo barulho 'toc toc' dos meus sapatos, eu não queria mesmo te incomodar. Desculpe-me por entrar na loja e fazer com que você venha me atender, eu não queria mesmo te dar trabalho.”
Aproximou-se lentamente da vendedora e soltou um pigarro fraquinho, como que para chamar a atenção, então a vendedora teria a opção de simplesmente ignorá-la. Porque se ela se anunciasse falando alguma coisa, forçaria a atenção, e a vendedora seria obrigada a atendê-la e não teria a chance de fugir sem culpa, afinal, com o pigarro, era só fingir que não a havia percebido.
Mas a vendedora sorriu um sorriso automático de quem não quer mais sorrir, sorriso forçado que precisava ser sorrido para o pagamento no final do mês.
- Posso ajudá-la, senhora?
A mulher pareceu sobressaltar-se. Não esperava mesmo que sua presença fosse notada, e soltou logo um sorriso de desculpas. “Desculpe-me por te incomodar, mas é que eu estou procurando um brinquedo para o meu filho... Mas desculpe-me por te impor a tarefa de me ajudar, é que eu não posso fazer isso sozinha, e desculpe também por pedir ajuda, eu sei que você só vai me ajudar porque é obrigada a ajudar, e não porque quer.”
- Ah... Eu, na verdade, procuro por um presente para o meu filho, que vai completar onze anos amanhã, veja só, onze anos e eu aqui pensando como eles crescem rápido! Mas é que se puder me ajudar, eu aprecio muito...
E parou, desconcertada. Ela e sua mania de falar demais. Bastava ter dito que procurava um presente para o seu filho, ponto. Porque a vendedora certamente não estaria interessada naquele blábláblá todo. “Peço desculpas por falar tanto, é que eu às vezes não me controlo e sinto essa necessidade de me explicar, como se me explicar fosse expurgar, de alguma maneira, o que me incomoda tanto dentro de mim.”
A vendedora alargou o sorriso, um sorriso de quem compreende. “Uma mãe aflita que quer agradar o filho, e que provavelmente não lhe dá muita atenção e por isso precisa de ajuda para escolher o presente, já que nem ao menos deve conhecê-lo bem.” Então, num aceno de cordialidade puramente forçada, disse:
- Bem, nós temos alguns jogos em particular que interessam meninos dessa idade. E também bonecos, quebra-cabeças, bicicletas de super-heróis... O que a senhora acha que vai interessar mais o seu filho?
Sobressalto. “Mas eu... eu não sei... É que estive tão preocupada em amá-lo pura e simplesmente que mal me atentei aos seus gostos pessoais. Desculpe-me... eu não sei.” Mas não deixou que isso se transparecesse. A vendedora não podia perceber a dúvida, a ignorância, porque isso seria entregar toda uma vida a ela, uma vida de onze anos que era mínima e delicada e que não poderia ser entregue a uma vendedora de loja de brinquedos. “Mas desculpe-me por ser assim, tão orgulhosa.”
- Bem, eu acredito que ele irá gostar de todos, mas talvez... da bicicleta, em especial.
Um chute. E era um chute mesmo, já que o filho não tinha ainda uma bicicleta e que, provavelmente, qualquer garoto de onze anos gostaria de bicicletas... Sobressalto: “meu filho, perdoe a mamãe por te igualar a todos os meninos da sua idade. Desculpe-me por não te conhecer melhor, eu que queria tanto entrar nesta loja com a certeza absoluta de que o que você quer mesmo é uma bicicleta. Desculpe-me por ser tão egoísta, eu que perdi o tempo todo te amando.”
- A senhora poderia me acompanhar para que eu mostre as bicicletas masculinas?
“E também, por ter estado ausente. Eu, que te amo tanto, com todas as forças que existem dentro de mim, do mais terrível e escuro eu. Desculpe-me por não saber se você prefere um jogo a uma bicicleta, ou se, quem sabe, um animalzinho... Um cachorro? Ou você prefere gatos? Diga para a mamãe, diga! Eu vou te dar tudo o que há no mundo, tudo o que você quiser, meu filho, porque eu quero saber do que você gosta, o que você quer. Desculpe-me por ser assim tão insegura, por andar devagar, com vergonha dos meus sapatinhos 'toc toc'... Desculpe-me por ser tão egoísta, por querer de você o amor, e somente o amor, sendo que há tantas coisas que eu posso receber de você e que posso dar também. Desculpe-me por ser tão mãe, que ama tanto e se esquece do resto... Desculpe-me também por pedir tantas desculpas o tempo todo, mas é que eu quero que você saiba que eu me arrependo de tudo isso, entende? Entende? Você é só uma criança mas seu coraçãozinho bate como o meu, todo ritmado e por vezes teimoso, acelerado...”
- Senhora?
Algo de inesperado aconteceu. E eis que a mulher, toda frágil e silenciosa, abriu mais os ombros, levantou a cabeça, deixou nus os olhos não mais tímidos, porém resignados diante de suas falhas, e respondeu, desta vez sem gaguejar e sem timidez na voz:
- Desculpe-me. Eu tenho perdido tanto tempo...
E voltou-se em direção à porta, andando firmemente, os sapatinhos fazendo “toc toc” no chão, para o filho que descobrira.