Agora é assim: você pega todo o amor que eu te dei e vai embora, por onde veio, sem me dizer uma só palavra de despedida. Nunca gostei de despedidas porque elas são os últimos olhares que se cruzam, o último toque nas mãos suadas, os últimos beijos das bocas sedentas.
Desculpe, não consigo mais amar-te e vejo-te amando-me tanto e tanto que sufoco desse seu amor. Esse seu amor que é que nem água quando a garganta está seca – refrigério - mas eu gosto mesmo é da necessidade de água, e não da água em si. Eu, toda necessitada de você, do seu toque e dos seus beijos, que quando os recebo, não quero mais – não mais, obrigada.
E eu, que achei que tinha tanto amor dentro de mim que poderia dar-te amor pra sempre. Só agora percebo é que dei tudo de uma vez, enchi-me toda de amor, inflei e joguei tudo, tudo em você. Intensamente, do jeito que eu sempre fiz. Doei-me, dei-me, sou sua, toda sua, você é meu, pertencemos um ao outro, para sempre. Sempre? Não mais.
É a você que recuso amor porque gosto mesmo é do desespero. Gosto mesmo é de acordar à noite sabendo que falta exatamente o que você pode me dar. Gostoso é a agonia de não poder beijar-te todo, da cabeça aos pés, esse seu corpo tão bonito, tão meu. Éramos felizes e sufoquei. Só que eu não nasci pra ser completa, aí fico despedaçando-me toda quando sinto que está tudo certo.
Beije-me pela última vez, aquele beijo molhado que só você sabe dar. É agora que nos separamos – adeus! Leve tudo embora com você, todo o amor que eu tinha dentro de mim e que sempre foi seu. Deixe-me vazia, murcha, que eu mal posso esperar pra me encher toda novamente.
Era mulher já feita, de uns quarenta e poucos anos. O nome era Margarida. Tinha uma filha, um marido e uma cadela. Era um pouco gorda, baixa, cabelos negros e encaracolados, queixo saliente, nariz grande, rosto redondo. Mas não era isso que marcava nela: o que a tornava mulher intrigante era o jeito como olhava para os outros. Um olhar tão profundo que parecia ler tudo o que se passava pela mente dos outros. Era conhecida como louca pela vizinhança. Segundo o que me diziam, gritava sozinha em casa e dizia pra quem quisesse ouvir que era um ser incompleto em busca da sua outra parte. Fora internada várias vezes, o marido mal cumprimentava os vizinhos e se enfiava dentro de casa, com medo de ouvir os comentários a respeito de Margarida. Vinha até a minha casa, sentava no sofá e tomava chá. Calada, ficava me olhando. Eu, tão medrosa de ser descoberta, tão ansiosa por me esconder daqueles olhos pretos, não conseguia dizer nada – conversar sobre o clima me parecia inapropriado. Então ela sorria, agradecia pelo chá e ia embora. Eu ficava aliviada: “quem sabe ela não volta mais.” Ela sempre voltava. Às vezes se passavam semanas de ausência e eu até me esquecia da mulher. “Vai ver ela percebeu o quão constrangedor é tudo isso e resolveu me deixar em paz.” Então, toc toc, Margarida batia à porta. Assim eu abria, ela me dava um sorriso tímido e ficava esperando que eu oferecesse um chá. E eu, toda boba que sou, nunca deixei de oferecer. “Aceita um chá, dona Margarida?” Ela nem se dava o trabalho de responder, apenas acenava com a cabeça e se dirigia ao sofá. Ficava esperando sem a decência de me perguntar sobre o meu dia, sobre os meus filhos, sobre a minha vida. E eu, indignada, preparava o chá, servia e sentava no outro sofá, de frente pra ela. Eis que numa sexta-feira cinzenta e fria ela veio me visitar novamente. “São só alguns minutos”, eu pensava enquanto abria a porta. Então ela sorriu e eu ofereci o chá. - Hoje eu quero um café. Prendi a respiração, o sorriso congelado no rosto, cenho franzido. Café? – Justo comigo, eu que variava os sabores dos chás para que ela não enjoasse, nessa ânsia de agradar não sei por quê? – Balbucei alguma coisa como que concordando, observei enquanto ela passava pela porta e ia até a sala. Fiz o café, perplexa, uma sensação angustiante já me invadindo. “E se não fossem só alguns minutos desta vez? E se ela resolvesse mudar tudo?” Mas me acalmei enquanto servia o café, já que ela apenas sorria o mesmo sorriso tímido em agradecimento. E lá ficamos nós, uns bons minutos, nos olhando, eu com a impressão de que ela me enxergava mais que me olhava. - Como a senhora está hoje? – ela me perguntou com um tom de voz interessado. - Eu? Ahn... bem, estou bem... E a senhora? – respondi, atônita. - Ah, eu não estou bem, não. Não tive coragem de perguntar o porquê. Nós não conversávamos, era quase um trato, e começar uma conversa seria quebrar o trato, que era silêncio. - A senhora, escreve, não escreve? – ela me perguntou. - Escrevo. - A senhora é boa nisso, não é? - Eu... eu não sei... – respondi, tentando pensar numa maneira de me livrar daquela mulher o mais rápido possível. - Todo mundo é bom em alguma coisa, você é boa com a escrita. Eu não sou boa em nada. Não tenho talento nenhum, não faço nada direito, tenho quarenta e três anos e sou medíocre. Mas se você quer saber de uma coisa, eu ainda vou ser boa em alguma coisa. Você é feliz? Eu sou infeliz. Já tentei de tudo, até banho de mar eu já tomei, até filho eu tive, mas continuo sentindo uma ausência que me arrasa, que me aniquila a cada dia que passa. Talvez eu esteja predestinada ao vazio: talvez ele faça parte de mim e eu faça parte dele, só nos resta a convivência. Entrei em pânico. O que fazer numa situação dessas? Como deixar alguém falar tão honestamente que chega a desconcertar, bem ali, na minha casa, no meu sofá? Como permitir tal transparência? Chega a ser um insulto para conosco quando alguém é tão verdadeiro sem pedir licença, quando alguém revela o mais profundo do seu eu com tamanha tranqüilidade, como se todos nós estivéssemos preparados para isso. Como se todos nós estivéssemos preparados para alguém que simplesmente se deixa ser. Não precisei responder nada porque Margarida encerrou a conversa antes de eu pensar em alguma resposta. Decerto ela percebeu o quão assustada eu ficara que resolveu não me deixar mais constrangida. Sorriu pra mim, disse até logo e foi embora. Mas Margarida não voltou mais.
Ela entrou na loja de brinquedos, os sapatinhos de madeira fazendo “toc toc”no chão. Era mulher de estatura mediana, magrela, o andar tímido, mas não tão tímido quanto o olhar. Olhava como quem pede desculpas. Desculpas por existir, por ter aberto os olhos num dia quente e se achado no mundo. “Desculpe-me pelo barulho 'toc toc' dos meus sapatos, eu não queria mesmo te incomodar. Desculpe-me por entrar na loja e fazer com que você venha me atender, eu não queria mesmo te dar trabalho.”
Aproximou-se lentamente da vendedora e soltou um pigarro fraquinho, como que para chamar a atenção, então a vendedora teria a opção de simplesmente ignorá-la. Porque se ela se anunciasse falando alguma coisa, forçaria a atenção, e a vendedora seria obrigada a atendê-la e não teria a chance de fugir sem culpa, afinal, com o pigarro, era só fingir que não a havia percebido.
Mas a vendedora sorriu um sorriso automático de quem não quer mais sorrir, sorriso forçado que precisava ser sorrido para o pagamento no final do mês.
- Posso ajudá-la, senhora?
A mulher pareceu sobressaltar-se. Não esperava mesmo que sua presença fosse notada, e soltou logo um sorriso de desculpas. “Desculpe-me por te incomodar, mas é que eu estou procurando um brinquedo para o meu filho... Mas desculpe-me por te impor a tarefa de me ajudar, é que eu não posso fazer isso sozinha, e desculpe também por pedir ajuda, eu sei que você só vai me ajudar porque é obrigada a ajudar, e não porque quer.”
- Ah... Eu, na verdade, procuro por um presente para o meu filho, que vai completar onze anos amanhã, veja só, onze anos e eu aqui pensando como eles crescem rápido! Mas é que se puder me ajudar, eu aprecio muito...
E parou, desconcertada. Ela e sua mania de falar demais. Bastava ter dito que procurava um presente para o seu filho, ponto. Porque a vendedora certamente não estaria interessada naquele blábláblá todo. “Peço desculpas por falar tanto, é que eu às vezes não me controlo e sinto essa necessidade de me explicar, como se me explicar fosse expurgar, de alguma maneira, o que me incomoda tanto dentro de mim.”
A vendedora alargou o sorriso, um sorriso de quem compreende. “Uma mãe aflita que quer agradar o filho, e que provavelmente não lhe dá muita atenção e por isso precisa de ajuda para escolher o presente, já que nem ao menos deve conhecê-lo bem.” Então, num aceno de cordialidade puramente forçada, disse:
- Bem, nós temos alguns jogos em particular que interessam meninos dessa idade. E também bonecos, quebra-cabeças, bicicletas de super-heróis... O que a senhora acha que vai interessar mais o seu filho?
Sobressalto. “Mas eu... eu não sei... É que estive tão preocupada em amá-lo pura e simplesmente que mal me atentei aos seus gostos pessoais. Desculpe-me... eu não sei.” Mas não deixou que isso se transparecesse. A vendedora não podia perceber a dúvida, a ignorância, porque isso seria entregar toda uma vida a ela, uma vida de onze anos que era mínima e delicada e que não poderia ser entregue a uma vendedora de loja de brinquedos. “Mas desculpe-me por ser assim, tão orgulhosa.”
- Bem, eu acredito que ele irá gostar de todos, mas talvez... da bicicleta, em especial.
Um chute. E era um chute mesmo, já que o filho não tinha ainda uma bicicleta e que, provavelmente, qualquer garoto de onze anos gostaria de bicicletas... Sobressalto: “meu filho, perdoe a mamãe por te igualar a todos os meninos da sua idade. Desculpe-me por não te conhecer melhor, eu que queria tanto entrar nesta loja com a certeza absoluta de que o que você quer mesmo é uma bicicleta. Desculpe-me por ser tão egoísta, eu que perdi o tempo todo te amando.”
- A senhora poderia me acompanhar para que eu mostre as bicicletas masculinas?
“E também, por ter estado ausente. Eu, que te amo tanto, com todas as forças que existem dentro de mim, do mais terrível e escuro eu. Desculpe-me por não saber se você prefere um jogo a uma bicicleta, ou se, quem sabe, um animalzinho... Um cachorro? Ou você prefere gatos? Diga para a mamãe, diga! Eu vou te dar tudo o que há no mundo, tudo o que você quiser, meu filho, porque eu quero saber do que você gosta, o que você quer. Desculpe-me por ser assim tão insegura, por andar devagar, com vergonha dos meus sapatinhos 'toc toc'... Desculpe-me por ser tão egoísta, por querer de você o amor, e somente o amor, sendo que há tantas coisas que eu posso receber de você e que posso dar também. Desculpe-me por ser tão mãe, que ama tanto e se esquece do resto... Desculpe-me também por pedir tantas desculpas o tempo todo, mas é que eu quero que você saiba que eu me arrependo de tudo isso, entende? Entende? Você é só uma criança mas seu coraçãozinho bate como o meu, todo ritmado e por vezes teimoso, acelerado...”
- Senhora?
Algo de inesperado aconteceu. E eis que a mulher, toda frágil e silenciosa, abriu mais os ombros, levantou a cabeça, deixou nus os olhos não mais tímidos, porém resignados diante de suas falhas, e respondeu, desta vez sem gaguejar e sem timidez na voz:
- Desculpe-me. Eu tenho perdido tanto tempo...
E voltou-se em direção à porta, andando firmemente, os sapatinhos fazendo “toc toc” no chão, para o filho que descobrira.
Ela grita, o olhar indignado, e chora. Não há nada mais frustrante que a sensação de impotência, e não poder fazer nada diante do que se quer mudar. Ela não. Ela recusa a frustração: é orgulhosa demais, tenta sempre justificar as falhas com argumentos positivos – quando traíra o antigo namorado, que a deixou assim que soube, disse que era melhor assim, estava mesmo precisando de tempo para cuidar de si mesma.
Mas chora escondida. Olha-se no espelho do banheiro e não se enxerga, não se reconhece em si. É toda uma máscara bem feita, e só o que sobre de verdadeiro é o olhar indignado, inquieto, ansioso. “Por quê, meu Deus, por quê?”, grita, os olhos embebidos por água salgada, do mar calmo e silencioso, que pede vida, mais vida... As lágrimas saem na tentativa de expectorar o gosto amargo da boca. Como vômito que quer sair e se engole de volta, e de tanto engolir, sai com mais força – o gosto mais forte.
Depois seca o rosto e engole o choro até a hora de vomita-lo novamente, e sai do banheiro para a vida: toda mulher que é, a expressão orgulhosa e a máscara bem presa à pele. Os olhos vermelhos, pequenos vestígios da revolta recém-vomitada.
Ainda estavam suados, ofegantes. Deitados, um do lado do outro, se olhavam, em silêncio. No olhar, a quietude dos amantes, aquela que diz tantas coisas, tantas coisas... As bocas entreabertas, tão próximas, suplicantes por mais beijos, soltavam a respiração alta, entrecortada, impossível não se ouvir. E ela, tão frágil, desnuda. Sem a maquiagem e as roupas que a tornavam mulher. Sem ter algo com o que se esconder diante daquela figura imponente, tão forte... Ah, sim, ela era mulher, sentia-se assim: mulher. Dona do mundo, os cabelos lisos tapando-lhe os seios fartos, dos bicos rosados. Era tão cheia de detalhes, ser mulher! As linhas nos cantos dos olhos se tornavam mais fortes com o passar do tempo, e a pele, outrora firme, tornava-se cada vez mais flácida e cheia de imperfeições. “E ele, tão homem!”, ela pensava. Pois que era mesmo. Aquele corpo ofegante perto do seu era velho conhecido. Os dois amantes já não encontravam mais surpresas ao se amarem, uma vez que tudo o que havia de novo já fora desvendado. Ela, que conhecia cada detalhe do corpo daquele homem, podia citar de olhos fechados todas as marcas adquiridas ao longo da vida, cada mínima parte era sua, pertencia-lhe. E mesmo assim, desejava-o tanto, na sua ânsia de mulher que precisava possuir. Queria tanto aquele corpo, meu Deus! E de tanto querer, envergonhou-se. O rubor ligeiro passou-lhe pela face suada, o coração palpitante acelerou-se e os poros permitiam que o suor saísse mais depressa. “Ai, que vergonha!”, pensava. Vergonha de desejar tanto algo que já era seu por tantos anos, vergonha pelo corpo envelhecido que ainda fazia pulsar aquele sexo alheio, embora com um pouco mais de esforço... Vergonha, no final, de ter mostrado a ele toda a sua imperfeição, toda a sua parte humana, mulher. E então, num gesto impulsivo, daqueles que a gente só percebe depois que já fez, colocou o rosto do homem entre suas mãos, apertando como se aperta um passarinho que não se quer deixar escapar. E beijou-lhe a boca úmida, com um fulgor que já não lhe pertencia mais, e sim à mulher que despertara dentro dela. E deixou escapar as lágrimas teimosas que insistiam em sair. As lágrimas de dor, pelo tempo que se fora tão rápido e não voltaria mais, e de alegria, por ter sido tão completamente apaixonada pelo homem que beijava. E também, no fundo sabia, lágrimas de vergonha por ter envelhecido, como se envelhecer fosse um erro imperdoável e ela fosse a culpada por ter deixado acontecer. O homem, surpreso, intenso, apenas afagou-lhe os cabelos e, olhando os olhos cúmplices da mulher envelhecida, disse: - Você é a criatura mais perfeita que já me apareceu na vida. E ela, cheia das imperfeições, cheia do pecado de deseja-lo tanto e de deixar o tempo passar, tornara-se, aos olhos dele, perfeita.
E eu, que deixei de escrever sobre tantas coisas, por tolices, nada mais que tolices. Ah, eu, que guardei comigo tantas palavras que podiam ter sido soltas...
Hoje amanheci crua. Meu chá está muito quente e minha língua queima toda vez que bebo um pouco. E não me importo. Me queimo. Vai queimando dentro de mim todos os resquícios de fragilidade que ainda restavam. Eram resquícios apenas. Sobra a rigidez implacável de mulher. Sinto-me tão mulher hoje! Não menina: mulher. E minha pontuação nem sempre é compreensível. Aprendi com Clarice, que dizia que a pontuação é a respiração da frase. Respiro assim. Pausadamente, cortadamente. E o ar que entra e sai dos meus pulmões também é assim. Cheio de fragmentos, cheio de grãos. E é arenoso. O que faz com que eu me queime mais com meu chá, numa tentativa deplorável de acabar de vez com o que resta de mim. Sou um ser inconstante. Se não souber conviver comigo, sugiro que afaste-se. Eu não mudo. Eu me respeito. E estou morrendo a cada segundo, morrendo dentro de mim mesma e das minhas veias que pulsam desesperadamente.
Havia uma menina cheia de vida que acordava sorrindo. Ela gostava dos dias frios, porque sua mãe deixava que ela faltasse às aulas, o que resultava num dia reservado apenas para as suas estripulias junto dos seus amigos. Meninos e meninas se juntavam para atormentar a vizinhança com suas risadas altas e suas artes. Mas o que a menina gostava mesmo era mexer em jardins. Ela cortava pedaços de roseiras e os replantava, na esperança de criar rosas novas, o que raramente dava certo pelo excesso de água. E tinha seu próprio jardim, que, apesar de ter mais flores mortas do que vivas, era cheio de vida, como a menina. Porque ela o possuía. O tempo passou e menina veio a se interessar por outros assuntos. Já não era tão atraente sujar as mãos de terra e espetar os dedos em roseiras. Já não se podia faltar às aulas para brincar, e o próprio brincar já não era tão mágico. Ela começou, enfim, a enxergar o mundo da maneira que ele é, e não da maneira que fantasiara na infância, todo colorido e fácil, e percebeu que estar vivo jamais significaria estar cheio de vida. Por que uma pessoa não pode simplismente escolher estar vivo e viver até sua morte? Oras, pode, e isso diz respeito somente à ela. Acontece que estar vivo é muito mais fácil - para isso basta não estar morto. Não exige nenhum esforço, nenhum desafio, nenhuma cor. Estar cheio de vida é outra coisa, complexa demais pra se explicar. Talvez a fórmula de "estar cheio de vida" seja um mistério até para os mais sábios. Só o que se sabe é que é necessária uma tentativa árdua para não cair na acomodação que é estar vivo. E a menina, que agora vê seus filhos brincarem com seus próprios jardins, uma vez me disse:
"Não viva apenas. Viver é algo tão fácil que a gente escolhe sem perceber. Mas o nosso tempo é muito curto e nós o perdemos irrevogavelmente deixando a vida passar. Não basta viver. É preciso saber viver. É preciso estar cheio de vida, sentir a própria vivacidade que é viver, mesmo que isso seja um pouco mais complicado."
Aqui vai meu desabafo sobre algo que tem me incomodado ultimamente, sem a menor intenção de fazer com que entendam. Desta vez, escrevo para mim. Não sei mais escrever. Perdi o tato, e é preciso tato. Com as palavras, digo. E faz três meses que eu tenho tentado mentalmente. Agora eu percebo que minha maior falha foi ter tido medo. Medo mesmo. De ser influenciada. Pelo quê? Oras, pelos escritores que tenho lido, é claro! Sempre achei muito esquisito o fato de as pessoas virem escrever aqui dizendo que meus textos lembram Lispector. O esquisito é porque até algum tempo atrás, tudo o que eu conhecia de Clarice Lispector eram alguns contos muito surreais para os meus olhos. Agora eu posso dizer, felizmente, que tenho um conhecimento maior sobre ela. E, depois de alguns livros, fiquei abestada. Abestada mesmo, de queixo caído, olho esbugalhado, etc e tal. Por quê? Porque, conscientemente ou não, eu dei um jeito de me identificar com a mulher duma maneira que chega até a ser infantil. Que nem criança quando arranja os primeiros ídolos: eles se vêem - com acento, sim - inteiramente em pessoas que nada têm a ver com eles. Pois o fato é que eu desejo ardentemente ser uma reencarnação de Lispector. Pelo menos aí eu não estaria sendo infantil. Mas acontece que, ao mesmo tempo em que quero ser a própria mulher, tenho medo de me influenciar e perder meu jeito - embora hoje em dia eu aceite com muito mais deleite os comentários e fique até satisfeita em pensar que alguns se lembram dela ao me ler. Há algum tempo eu conheci uma garota que escreve, e muito bem. Eu perguntei o que ela gostava de ler e ela me respondeu: "não leio." "Como assim, não lê?" "Não leio. Se li dois livros de Machado de Assis, foi muito. Não leio pra não perder a minha identidade." Achei um absurdo, é claro. As pessoas devem saber separar as coisas. Mas, de alguma maneira, isso agora faz mais sentido pra mim do que antes. Amo Verissimo, o pai - sem acento -. Um de meus livros preferidos foi escrito por ele, e hoje eu penso que, mesmo sem ter tido a intenção, me inspirei no tal livro para escrever quase todos os meus contos sobre garotinhas entre 6 e 8 anos. O nome do livro é "Clarissa", o nome da minha futura filha, e o nome de uma personagem minha. Também tem Clarice, que foi só uma forma de eu não repetir o nome. E Alice e Alicia, que vêm da Alice do País das Maravilhas mesmo, confesso. Mas ninguém nunca me disse que lembrou de Erico Verissimo ao ler qualquer um desses contos. Talvez seja porque Erico Verissimo não é tão lido quanto Machado de Assis e Clarice Lispector. Talvez seja porque a interpretação que eu fiz do livro é muito pessoal. Entretanto, lembraram de Machado de Assis quando eu escrevi o primeiro conto sobre Blocêntrico Joaquim. E foi mesmo num livro dele que eu me inspirei - mais uma vez duma maneira muito pessoal. Mas eu nunca me inspirei em Lispector. E é nela que as pessoas falam mais. Às vezes eu desejo não ter lido coisa alguma. Talvez assim eu pudesse conservar a pureza e a limpidez da escrita. Provavelmente assim eu me sentiria muito mais escritora do que leitora. E isso é algo que eu busco ardentemente, já que eu nasci para escrever, muito mais do que para ler.
Vi um jarro d'água em cima duma mesa retangular. A mesa era marrom, de acabamento tosco e com uma toalha branca desajeitadamente posta sobre ela. Digo "desajeitadamente" porque não havia simetria. Num lado da mesa, havia mais de dez centímetros da borda da toalha pendurados, e doutro, apenas cinco ou seis. Sempre tive a tendência de me irritar com essas coisas, já que as considero de puro mal gosto e desleixo. Sobre a mesa, como já disse, havia um jarro d'água, de porcelana barata, com alguns detalhes florais cor-de-rosa. Eu estava parada, olhando fixamente para a mesa com seu jarro, quando me dei conta de que a distância de uns dois metros da mesa me impedia de observar melhor. Aproximei-me, então. Toquei o jarro delicadamente e vi a água, outrora parada, fazer pequenos círculos, uns dentro dos outros, que acabavam se dissipando conforme se aproximavam da porcelana. Apoiei-me, então, na mesa, e tentei observar meu reflexo na água. Não é tão fácil quanto aparenta ser nos desenhos e lendas mitológicas. É preciso todo um jogo de luzes e sombras para que se veja o reflexo com bastante clareza. Contudo, consegui ver o reflexo fraco, tremeluzindo nos círculos que se formavam a cada instante, e o brilho dos meus olhos que talvez fosse, também, reflexo da água. Não sei. Nem sei bem o que é reflexo, só sei do significado gramatical. Comigo as coisas sempre foram pela semântica. Sei dizer o que é uma sombra, mas não saberia explicá-la sem me embananar. Isso eu deixo pros outros, os que gostam de estudar os porquês. Para mim, basta a gramática. Deixando ou não os significados e os porquês de lado, o fato é que, na dificuldade de ver-me claramente, imaginei-me no meu próprio reflexo. É claro que, de início, o que vi foram coisas que todos vêem ao olhar-me: meu nariz sutilmente torto, os óculos redondos e os olhos por detrás do vidro. Vi a pinta perto do meu olho esquerdo e a marca do contorno dos meus sorrisos, que se mostra presente mesmo quando estou séria, de tanto que já ri. Depois de alguns minutos, no entanto, comecei a enxergar mais coisas. Prestei atenção em como os cantos da minha boca se curvam para baixo, demonstrando, talvez, o cansaço de quem corre atrás de algo há muito tempo e ainda não desistiu, mesmo com a incerteza de algum dia sequer chegar perto de conseguir. Prestei atenção em como o brilho dos meus olhos não cessa, talvez porque, por detrás de toda a carcaça do pessimismo e do conformismo, ainda exista uma vivacidade colorida e fugaz, que luta para se sobressair dia após dia. Então decidi que, aconteça o que acontecer, não deixarei que a vivacidade se extinga, nem que a curiosidade insaciável dum saber absoluto se apague, mesmo sabendo que, no fundo, são essas as coisas que me destróem e me envelhecem, enfraquecendo-me para um futuro que muito provavelmente exigirá uma força inenarrável para ser vencido. Fechei os olhos e levantei a cabeça lentamente. Quando os abri novamente, não havia mais reflexo. Havia apenas a janela com a pintura dum mundo pronto para ser desbravado e engolido pelas cores que ainda me restavam, sejam elas fracas ou não. O que importa não é necessariamente que você veja o seu reflexo, mas sim que o você o enxergue.
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