E era doce e suave e lembrava algodão tocando o rosto. E se eu colocasse a língua pra fora, certamente sentiria floquinhos de sorvete caindo dentro da boca - de todos os sabores: chocolate, abacaxi, baunilha e frutas vermelhas -, e então eu fecharia a boca e mastigaria bem rápido pra não perder tempo e abocanhar mais floquinhos de sorvete. E a música era calma e tinha uma voz de criança bem ao fundo cantarolando "tã nã nã la ra ra", bem baixinho que era pra não acordar os passarinhos dormindo na árvore de frente pra janela - os passarinhos e seus filhotes pequeninos, pequeninos. E então a gente acordava e ficava ali, parado debaixo da coberta, com os olhos bem fechados a boca se abrindo pra sussurar:
18.2.11
17.7.10
Despertar.
"Despertar*: des.per.tar (des+lat *expertare) vtd 1. Tirar do sono; acordar: A sereia da fábrica nos desperta de manhã. Minha filha é quem me desperta com o seu beijo. vti e vint 2. Sair do sono; acordar: Despertei de um sono profundo. Despertamos bem cedo na fazenda. vti e vint 3. Readquirir força ou atividade; reanimar: Despertou da languidez. Perante o perigo ele despertara. vtd 4. Tirar do estado de torpor ou de inércia. vtd 5. Dar ocasião a; provocar, suscitar, causar: Este fato despertou-lhe a saudade. Aquelas palavras lhe despertaram na alma recordações e impulsos da idade florescente. vtd 6. Animar, avivar, estimular, excitar: Despertar a sensibilidade. Despertou no filho o desejo de estudar. vpr 7. Manifestar-se, revelar-se, surgir: Despertou-se-lhe a pouco e pouco o sentido da audição."
22.4.10
Reencontro.
- Você tem tomado sol, Clara?
- Nós estamos em pleno inverno, Marcelo.
- Eu sei...
Continuou me olhando com aqueles olhos verdes secos e grandes que mais pareciam velhas bolitas de gude das quais o brilho havia se extinguido pelo tempo - quando a vi pela primeira vez, não conseguia abandonar o pensamento de que seria ótimo pingar algumas gotas de colírio naqueles olhos. Cheguei a me prometer que faria isso -. Era sempre assim: chegava sem avisar, examinava a casa bagunçada com aquele olhar desaprovador que eu odiava tanto, perguntava sobre o cachorro e por último, finalmente, passava uns bons minutos me encarando em silêncio.
O tempo passava e ela ficava mais bonita. Envelhecer é um privilégio de que poucas mulheres tiram proveito – a maioria está preocupada em demasia tentando disfarçar o tempo vivido, o que é uma tolice em se tratando do tempo, sempre tão impiedoso em relação às marcas que deixa. Mas Clara era diferente... Ela possuía em seu semblante esse ar de mulher vivida, de sabedoria que se adquire com o tempo, o que a deixava ainda mais irresistível. E lá estávamos nós, parados, um de frente para o outro, apenas a mesinha com algumas revistas e o cinzeiro entre nós. A mesinha e o acanhamento que nos envolvia.
Eu sempre tive medo de quebrar o silêncio. Ela continuava me olhando daquele jeito intenso e desconcertante dela, eu cada vez mais perdido nos olhos secos que sugavam toda a serenidade que havia em mim, deixando-me na companhia indesejada de um desespero que me tomava e fazia sacudir cada parte do meu corpo, aquela sensação de vazio que me preenchia todo, a vontade de gritar tão alto até que a garganta fosse capaz de rasgar e que eu pudesse sentir o gosto do sangue fresco. E doía olhá-la, aquela mulher que outrora não estranharia se eu esticasse o braço e tocasse suas mãos fechadas em punho sobre os joelhos. E ela sabia que doía em mim porque, de alguma forma, o meu sofrimento era tão exorbitante que se fazia sentir quase que como matéria pela sala.
Finalmente perguntou pelo que eu já esperava porque havia sido assim nos últimos três meses e agora se repetia como numa peça que era ensaiada do começo ao fim:
- Como você está?
Eu estou morrendo, Clara, eu estou morrendo e sinto a minha alma dilacerada como carne que se corta em pedaços pequenos o suficiente para que se possa mastigar e destroçar mais e mais. Já não posso suportar acordar e não ver os seus cabelos cor de fogo espalhados no travesseiro do lado do meu, já não consigo lidar com essa sua ausência que se faz presente o tempo todo, essas suas sardas que eu já perdi as contas faz tempo, tanto tempo...
- Eu estou... bem. E você, han? E o Guilherme?
- Ah, estamos bem... O Guilherme está trabalhando pra uma grande empresa no centro da cidade agora, nós estamos até pensando em nos mudar pra um lugar maior. Você sabe como eu nunca gostei muito de lugares apertados, sem jardins bonitos e cachorros brincando neles. Escute, Marcelo, eu tenho que ir agora, tenho um compromisso mais tarde e ainda preciso passar em casa e me arrumar.
Sempre um compromisso. A mesma desculpa para fugir dos mesmos constrangimentos. Fiquei me perguntando se as visitas dela seriam uma forma de não me fazer esquecer da sua existência – como se isso fosse possível -, se ela gostava de ver o sofrimento que eu fazia questão de não esconder nos meus olhos ou se ela simplesmente gostava de situações embaraçosas. Pensei em jogar-me aos seus pés e implorar para que não me deixasse mais, para que não beijasse mais outros lábios que não os meus, tão sedentos dos seus beijos, meus braços tão saudosos dos seus abraços... Pensei também em dar-lhe um tapa no rosto e ordenar que me deixasse em paz, que não voltasse a me atormentar com a sua visão novamente.
Entretanto, deixei-a ir, como sempre fiz, e ela já havia se despedido e ia em direção ao carro quando eu abri a porta de casa num ímpeto e gritei: “Clara!” Ela se virou, o cenho franzido, e perguntou o que era.
- Você tinha um jardim aqui. E um cachorro que brincava nele.
Então seus olhos, sempre secos, encheram d’água que começou a escorrer pela face sardenta tão rapidamente que eu tive a certeza de que ela estivera segurando o choro o tempo todo. Aqueles olhos molhados que eu havia imaginado por cinco anos porque nunca a tinha visto chorar, aqueles olhos que eu imaginava que só fossem ficar úmidos no dia em que ela finalmente me deixasse pingar algumas gotas de colírio. Soltou um soluço baixo, secou ligeiramente o rosto e sorriu um sorriso cansado.
- Eu sei...
Foi embora, o corpo pequeno e pálido contrastando com o vestido verde escuro. Dez anos depois eu tive notícias de Clara, casada e com um filho de seis anos. Nunca mais voltou: uma vez que havia chorado na minha frente, nós dois sabíamos que ela deixara-se ser tão completamente que não poderia voltar a me encarar.
4.2.10
Adeus.
Agora é assim: você pega todo o amor que eu te dei e vai embora, por onde veio, sem me dizer uma só palavra de despedida. Nunca gostei de despedidas porque elas são os últimos olhares que se cruzam, o último toque nas mãos suadas, os últimos beijos das bocas sedentas.
Desculpe, não consigo mais amar-te e vejo-te amando-me tanto e tanto que sufoco desse seu amor. Esse seu amor que é que nem água quando a garganta está seca – refrigério - mas eu gosto mesmo é da necessidade de água, e não da água
E eu, que achei que tinha tanto amor dentro de mim que poderia dar-te amor pra sempre. Só agora percebo é que dei tudo de uma vez, enchi-me toda de amor, inflei e joguei tudo, tudo
É a você que recuso amor porque gosto mesmo é do desespero. Gosto mesmo é de acordar à noite sabendo que falta exatamente o que você pode me dar. Gostoso é a agonia de não poder beijar-te todo, da cabeça aos pés, esse seu corpo tão bonito, tão meu. Éramos felizes e sufoquei. Só que eu não nasci pra ser completa, aí fico despedaçando-me toda quando sinto que está tudo certo.
Beije-me pela última vez, aquele beijo molhado que só você sabe dar. É agora que nos separamos – adeus! Leve tudo embora com você, todo o amor que eu tinha dentro de mim e que sempre foi seu. Deixe-me vazia, murcha, que eu mal posso esperar pra me encher toda novamente.
6.1.10
Margarida.
Era conhecida como louca pela vizinhança. Segundo o que me diziam, gritava sozinha em casa e dizia pra quem quisesse ouvir que era um ser incompleto em busca da sua outra parte. Fora internada várias vezes, o marido mal cumprimentava os vizinhos e se enfiava dentro de casa, com medo de ouvir os comentários a respeito de Margarida.
Vinha até a minha casa, sentava no sofá e tomava chá. Calada, ficava me olhando. Eu, tão medrosa de ser descoberta, tão ansiosa por me esconder daqueles olhos pretos, não conseguia dizer nada – conversar sobre o clima me parecia inapropriado. Então ela sorria, agradecia pelo chá e ia embora. Eu ficava aliviada: “quem sabe ela não volta mais.” Ela sempre voltava.
Às vezes se passavam semanas de ausência e eu até me esquecia da mulher. “Vai ver ela percebeu o quão constrangedor é tudo isso e resolveu me deixar em paz.” Então, toc toc, Margarida batia à porta. Assim eu abria, ela me dava um sorriso tímido e ficava esperando que eu oferecesse um chá. E eu, toda boba que sou, nunca deixei de oferecer. “Aceita um chá, dona Margarida?” Ela nem se dava o trabalho de responder, apenas acenava com a cabeça e se dirigia ao sofá. Ficava esperando sem a decência de me perguntar sobre o meu dia, sobre os meus filhos, sobre a minha vida. E eu, indignada, preparava o chá, servia e sentava no outro sofá, de frente pra ela.
Eis que numa sexta-feira cinzenta e fria ela veio me visitar novamente. “São só alguns minutos”, eu pensava enquanto abria a porta. Então ela sorriu e eu ofereci o chá.
- Hoje eu quero um café.
Prendi a respiração, o sorriso congelado no rosto, cenho franzido. Café? – Justo comigo, eu que variava os sabores dos chás para que ela não enjoasse, nessa ânsia de agradar não sei por quê? – Balbucei alguma coisa como que concordando, observei enquanto ela passava pela porta e ia até a sala. Fiz o café, perplexa, uma sensação angustiante já me invadindo. “E se não fossem só alguns minutos desta vez? E se ela resolvesse mudar tudo?” Mas me acalmei enquanto servia o café, já que ela apenas sorria o mesmo sorriso tímido em agradecimento. E lá ficamos nós, uns bons minutos, nos olhando, eu com a impressão de que ela me enxergava mais que me olhava.
- Como a senhora está hoje? – ela me perguntou com um tom de voz interessado.
- Eu? Ahn... bem, estou bem... E a senhora? – respondi, atônita.
- Ah, eu não estou bem, não.
Não tive coragem de perguntar o porquê. Nós não conversávamos, era quase um trato, e começar uma conversa seria quebrar o trato, que era silêncio.
- A senhora, escreve, não escreve? – ela me perguntou.
- Escrevo.
- A senhora é boa nisso, não é?
- Eu... eu não sei... – respondi, tentando pensar numa maneira de me livrar daquela mulher o mais rápido possível.
- Todo mundo é bom em alguma coisa, você é boa com a escrita. Eu não sou boa em nada. Não tenho talento nenhum, não faço nada direito, tenho quarenta e três anos e sou medíocre. Mas se você quer saber de uma coisa, eu ainda vou ser boa em alguma coisa. Você é feliz? Eu sou infeliz. Já tentei de tudo, até banho de mar eu já tomei, até filho eu tive, mas continuo sentindo uma ausência que me arrasa, que me aniquila a cada dia que passa. Talvez eu esteja predestinada ao vazio: talvez ele faça parte de mim e eu faça parte dele, só nos resta a convivência.
Entrei em pânico. O que fazer numa situação dessas? Como deixar alguém falar tão honestamente que chega a desconcertar, bem ali, na minha casa, no meu sofá? Como permitir tal transparência? Chega a ser um insulto para conosco quando alguém é tão verdadeiro sem pedir licença, quando alguém revela o mais profundo do seu eu com tamanha tranqüilidade, como se todos nós estivéssemos preparados para isso. Como se todos nós estivéssemos preparados para alguém que simplesmente se deixa ser.
Não precisei responder nada porque Margarida encerrou a conversa antes de eu pensar em alguma resposta. Decerto ela percebeu o quão assustada eu ficara que resolveu não me deixar mais constrangida. Sorriu pra mim, disse até logo e foi embora.
Mas Margarida não voltou mais.
14.10.09
Um pedido de desculpas.
Ela entrou na loja de brinquedos, os sapatinhos de madeira fazendo “toc toc”no chão. Era mulher de estatura mediana, magrela, o andar tímido, mas não tão tímido quanto o olhar. Olhava como quem pede desculpas. Desculpas por existir, por ter aberto os olhos num dia quente e se achado no mundo. “Desculpe-me pelo barulho 'toc toc' dos meus sapatos, eu não queria mesmo te incomodar. Desculpe-me por entrar na loja e fazer com que você venha me atender, eu não queria mesmo te dar trabalho.”
Aproximou-se lentamente da vendedora e soltou um pigarro fraquinho, como que para chamar a atenção, então a vendedora teria a opção de simplesmente ignorá-la. Porque se ela se anunciasse falando alguma coisa, forçaria a atenção, e a vendedora seria obrigada a atendê-la e não teria a chance de fugir sem culpa, afinal, com o pigarro, era só fingir que não a havia percebido.
Mas a vendedora sorriu um sorriso automático de quem não quer mais sorrir, sorriso forçado que precisava ser sorrido para o pagamento no final do mês.
- Posso ajudá-la, senhora?
A mulher pareceu sobressaltar-se. Não esperava mesmo que sua presença fosse notada, e soltou logo um sorriso de desculpas. “Desculpe-me por te incomodar, mas é que eu estou procurando um brinquedo para o meu filho... Mas desculpe-me por te impor a tarefa de me ajudar, é que eu não posso fazer isso sozinha, e desculpe também por pedir ajuda, eu sei que você só vai me ajudar porque é obrigada a ajudar, e não porque quer.”
- Ah... Eu, na verdade, procuro por um presente para o meu filho, que vai completar onze anos amanhã, veja só, onze anos e eu aqui pensando como eles crescem rápido! Mas é que se puder me ajudar, eu aprecio muito...
E parou, desconcertada. Ela e sua mania de falar demais. Bastava ter dito que procurava um presente para o seu filho, ponto. Porque a vendedora certamente não estaria interessada naquele blábláblá todo. “Peço desculpas por falar tanto, é que eu às vezes não me controlo e sinto essa necessidade de me explicar, como se me explicar fosse expurgar, de alguma maneira, o que me incomoda tanto dentro de mim.”
A vendedora alargou o sorriso, um sorriso de quem compreende. “Uma mãe aflita que quer agradar o filho, e que provavelmente não lhe dá muita atenção e por isso precisa de ajuda para escolher o presente, já que nem ao menos deve conhecê-lo bem.” Então, num aceno de cordialidade puramente forçada, disse:
- Bem, nós temos alguns jogos em particular que interessam meninos dessa idade. E também bonecos, quebra-cabeças, bicicletas de super-heróis... O que a senhora acha que vai interessar mais o seu filho?
Sobressalto. “Mas eu... eu não sei... É que estive tão preocupada em amá-lo pura e simplesmente que mal me atentei aos seus gostos pessoais. Desculpe-me... eu não sei.” Mas não deixou que isso se transparecesse. A vendedora não podia perceber a dúvida, a ignorância, porque isso seria entregar toda uma vida a ela, uma vida de onze anos que era mínima e delicada e que não poderia ser entregue a uma vendedora de loja de brinquedos. “Mas desculpe-me por ser assim, tão orgulhosa.”
- Bem, eu acredito que ele irá gostar de todos, mas talvez... da bicicleta, em especial.
Um chute. E era um chute mesmo, já que o filho não tinha ainda uma bicicleta e que, provavelmente, qualquer garoto de onze anos gostaria de bicicletas... Sobressalto: “meu filho, perdoe a mamãe por te igualar a todos os meninos da sua idade. Desculpe-me por não te conhecer melhor, eu que queria tanto entrar nesta loja com a certeza absoluta de que o que você quer mesmo é uma bicicleta. Desculpe-me por ser tão egoísta, eu que perdi o tempo todo te amando.”
- A senhora poderia me acompanhar para que eu mostre as bicicletas masculinas?
“E também, por ter estado ausente. Eu, que te amo tanto, com todas as forças que existem dentro de mim, do mais terrível e escuro eu. Desculpe-me por não saber se você prefere um jogo a uma bicicleta, ou se, quem sabe, um animalzinho... Um cachorro? Ou você prefere gatos? Diga para a mamãe, diga! Eu vou te dar tudo o que há no mundo, tudo o que você quiser, meu filho, porque eu quero saber do que você gosta, o que você quer. Desculpe-me por ser assim tão insegura, por andar devagar, com vergonha dos meus sapatinhos 'toc toc'... Desculpe-me por ser tão egoísta, por querer de você o amor, e somente o amor, sendo que há tantas coisas que eu posso receber de você e que posso dar também. Desculpe-me por ser tão mãe, que ama tanto e se esquece do resto... Desculpe-me também por pedir tantas desculpas o tempo todo, mas é que eu quero que você saiba que eu me arrependo de tudo isso, entende? Entende? Você é só uma criança mas seu coraçãozinho bate como o meu, todo ritmado e por vezes teimoso, acelerado...”
- Senhora?
Algo de inesperado aconteceu. E eis que a mulher, toda frágil e silenciosa, abriu mais os ombros, levantou a cabeça, deixou nus os olhos não mais tímidos, porém resignados diante de suas falhas, e respondeu, desta vez sem gaguejar e sem timidez na voz:
- Desculpe-me. Eu tenho perdido tanto tempo...
E voltou-se em direção à porta, andando firmemente, os sapatinhos fazendo “toc toc” no chão, para o filho que descobrira.
2.9.09
Vômito.
Ela grita, o olhar indignado, e chora. Não há nada mais frustrante que a sensação de impotência, e não poder fazer nada diante do que se quer mudar. Ela não. Ela recusa a frustração: é orgulhosa demais, tenta sempre justificar as falhas com argumentos positivos – quando traíra o antigo namorado, que a deixou assim que soube, disse que era melhor assim, estava mesmo precisando de tempo para cuidar de si mesma.
Mas chora escondida. Olha-se no espelho do banheiro e não se enxerga, não se reconhece em si. É toda uma máscara bem feita, e só o que sobre de verdadeiro é o olhar indignado, inquieto, ansioso. “Por quê, meu Deus, por quê?”, grita, os olhos embebidos por água salgada, do mar calmo e silencioso, que pede vida, mais vida... As lágrimas saem na tentativa de expectorar o gosto amargo da boca. Como vômito que quer sair e se engole de volta, e de tanto engolir, sai com mais força – o gosto mais forte.
Depois seca o rosto e engole o choro até a hora de vomita-lo novamente, e sai do banheiro para a vida: toda mulher que é, a expressão orgulhosa e a máscara bem presa à pele. Os olhos vermelhos, pequenos vestígios da revolta recém-vomitada.
4.8.09
Envelhecida.
“E ele, tão homem!”, ela pensava. Pois que era mesmo. Aquele corpo ofegante perto do seu era velho conhecido. Os dois amantes já não encontravam mais surpresas ao se amarem, uma vez que tudo o que havia de novo já fora desvendado. Ela, que conhecia cada detalhe do corpo daquele homem, podia citar de olhos fechados todas as marcas adquiridas ao longo da vida, cada mínima parte era sua, pertencia-lhe. E mesmo assim, desejava-o tanto, na sua ânsia de mulher que precisava possuir. Queria tanto aquele corpo, meu Deus! E de tanto querer, envergonhou-se.
O rubor ligeiro passou-lhe pela face suada, o coração palpitante acelerou-se e os poros permitiam que o suor saísse mais depressa. “Ai, que vergonha!”, pensava. Vergonha de desejar tanto algo que já era seu por tantos anos, vergonha pelo corpo envelhecido que ainda fazia pulsar aquele sexo alheio, embora com um pouco mais de esforço... Vergonha, no final, de ter mostrado a ele toda a sua imperfeição, toda a sua parte humana, mulher.
E então, num gesto impulsivo, daqueles que a gente só percebe depois que já fez, colocou o rosto do homem entre suas mãos, apertando como se aperta um passarinho que não se quer deixar escapar. E beijou-lhe a boca úmida, com um fulgor que já não lhe pertencia mais, e sim à mulher que despertara dentro dela. E deixou escapar as lágrimas teimosas que insistiam em sair. As lágrimas de dor, pelo tempo que se fora tão rápido e não voltaria mais, e de alegria, por ter sido tão completamente apaixonada pelo homem que beijava. E também, no fundo sabia, lágrimas de vergonha por ter envelhecido, como se envelhecer fosse um erro imperdoável e ela fosse a culpada por ter deixado acontecer.
O homem, surpreso, intenso, apenas afagou-lhe os cabelos e, olhando os olhos cúmplices da mulher envelhecida, disse:
- Você é a criatura mais perfeita que já me apareceu na vida.
E ela, cheia das imperfeições, cheia do pecado de deseja-lo tanto e de deixar o tempo passar, tornara-se, aos olhos dele, perfeita.
Não mais.
E eu, que deixei de escrever sobre tantas coisas, por tolices, nada mais que tolices.
Ah, eu, que guardei comigo tantas palavras que podiam ter sido soltas...Não mais.
30.5.09
Compreensão.
Meu chá está muito quente e minha língua queima toda vez que bebo um pouco. E não me importo. Me queimo. Vai queimando dentro de mim todos os resquícios de fragilidade que ainda restavam. Eram resquícios apenas.
Sobra a rigidez implacável de mulher. Sinto-me tão mulher hoje! Não menina: mulher. E minha pontuação nem sempre é compreensível. Aprendi com Clarice, que dizia que a pontuação é a respiração da frase.
Respiro assim. Pausadamente, cortadamente. E o ar que entra e sai dos meus pulmões também é assim. Cheio de fragmentos, cheio de grãos. E é arenoso. O que faz com que eu me queime mais com meu chá, numa tentativa deplorável de acabar de vez com o que resta de mim.
Sou um ser inconstante. Se não souber conviver comigo, sugiro que afaste-se. Eu não mudo. Eu me respeito. E estou morrendo a cada segundo, morrendo dentro de mim mesma e das minhas veias que pulsam desesperadamente.

